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Geopolítica

Fifa não reconhece Kosovo como nação

29/10/13

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Falta de reconhecimento impede que o jogador kosovar Adnan Januzaj, revelação do Manchester United, defenda a seleção de seu país

Edição: Samanta Dias

No início de outubro, ao estrear como profissional pelo time inglês Manchester United, Adnan Januzaj, de 18 anos, foi apontado como responsável pela vitória da equipe. O talento dele já chamava atenção nas categorias de base do futebol, quando foi convocado várias vezes pela seleção belga, mas recusou os convites. Januzaj nasceu na Bélgica, país onde seus pais, kosovares de origem albanesa, se refugiaram durante a guerra com a Sérvia. A possível vontade do jogador de atuar pela seleção de Kosovo colocou em foco a questão da independência ainda não plenamente reconhecida do país. (Leia a matéria completa.)

A seguir, veja como o esporte reflete questões políticas e ideológicas e entenda a situação de Kosovo e o contexto em que se deu sua independência.  

Esporte e a luta por ideais

Por Stefan Valim Menke, especialista em Geografia

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Bandeira de Kosovo
Para muitos de nós, o esporte é uma forma de entretenimento, prática para manter a saúde e motivo para reunião entre amigos. Contudo, ele é muito mais profundo do que isso e pode servir como instrumento político para representar e defender a identidade de determinado grupo ou nacionalidade.

Ora, o clássico embate Brasil x Argentina no futebol não representa apenas uma disputa no campo, mas uma rivalidade regional no âmbito da liderança geopolítica do continente sul-americano, assim como Barcelona, Real Madrid e Atletic Bilbao são símbolos e representantes de suas respectivas regiões, com seu discurso político e ideologias geográficas próprias.

O caso do kosovar Adnan Janujav não é inédito e nem será o último no esporte. Vestir a camisa de um time significa encarnar a luta por um ideal, seja ele voltado apenas ao esporte, a um fim humanitário ou a um fim político maior. Veja a seguir exemplos de atletas que usaram o esporte para promover ideais políticos.

Bruna Tiso e Gisele Toledo
Clique nos nomes e veja o contexto político em qua cada atleta atuou

Um caso famoso do uso do futebol em movimentos de independência ocorreu na Argélia, entre 1958 e 1962,
Leia mais sobre futebol, geopolítica e identidade
quando diversos jogadores argelinos, que atuavam na primeira divisão do futebol francês, contribuíram com a Frente de Libertação Nacional por meio da formação de uma seleção nacional. O objetivo era reforçar a causa da independência, conscientizar a população argelina, propagandear a causa da FLN e mostrar aos franceses o envolvimento dos atletas com o movimento argelino.

Os exemplos são muitos e se estendem desde a Antiguidade. Soldados defendiam seus países e territórios não apenas nos campos de batalha, mas nas arenas esportivas. As guerras paravam durante esses eventos não só por envolver diversas nações ou porque os melhores soldados eram os

Clique e veja o trailer do documentário Rebeldes do futebol
próprios atletas nas competições, mas porque aquela era uma extensão da política e dos conflitos. Durante a Guerra Fria, atletas soviéticos e norte-americanos se enfrentaram em competições internacionais que ecoavam o contexto geopolítico maior.

Assim como um estandarte, uma bandeira ou um hino são símbolos, frutos de um discurso social contextualizado, o esporte é um instrumento social e político contextualizado. Portanto, não pode ser considerado apenas entretenimento ou instrumento de alienação, mas uma forma de discurso ideológico que pode servir a causas maiores.

Kosovo: desafios geográficos


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Mapa da região dos Balcãs, onde ficam Kosovo e Sérvia. Clique para ampliar
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Kosovo era uma província autônoma da então República Federal Socialista da Iugoslávia. Em 1974, sob uma nova Constituição, ganhou status equivalente ao de uma república. Contudo, o nacionalismo albanês (etnia de boa parte dos kosovares) aumentou na década de 1980, quando manifestações passaram a exigir a independência kosovar. Ao mesmo tempo, líderes nacionalistas sérvios (etnia que controlava a Iugoslávia), como Slobodan Milosevic, aproveitaram-se da alegação de hostilidades contra sérvios no Kosovo para adquirir apoio eleitoral – muitos sérvios viam o Kosovo como o seu centro histórico-cultural desde a Idade Média. Veja a origem das tensões entre Kosovo e Sérvia.

Sob a liderança de Milosevic, a Sérvia instituiu uma nova Constituição em 1989 e revogou a autonomia kosovar. Em 1991, líderes albaneses organizaram um referendo que declarou a independência do Kosovo. Em resposta, Milosevic instituiu medidas repressivas contra os albaneses kosovares, em um período marcado por “faxinas étnicas” por toda uma Iugoslávia em vias de fragmentação territorial.

A resistência albanesa teve duas fases. Uma sob a liderança de Ibrahim Rugova, que implementou uma
Saiba mais sobre os conflitos étnicos na antiga Iugoslávia
resistência passiva em busca de reconhecimento internacional. Depois, albaneses insatisfeitos
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Bairro sérvio em chamas, após suposto ataque de kosovares albaneses, em 1999, no Kosovo
com a liderança de Rugova criaram um exército de libertação nacional e lançaram campanhas de insurgência. Assim, em 1998, forças militares e paramilitares sérvias conduziram uma campanha brutal de contrainsurgência, que resultou em massacres e expulsão de mais de 800.000 albaneses.

Tentativas de negociação internacional fracassaram, levando a uma campanha militar de três meses da OTAN. Como resultado, em março de 1999 o governo sérvio concordou em retirar suas forças do Kosovo e a ONU instituiu uma administração transitória.

Em 2005 teve início um processo liderado pela ONU para determinar o status final do território kosovar. Entre 2006 e 2007, diversas negociações entraram em curso, porém não houve consenso. Em 17 de fevereiro de 2008, a Assembleia do Kosovo declarou o país independente, sendo reconhecido por mais de 100 nações e passando a integrar o FMI, o Banco Mundial e o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento. Em outubro de 2008, a Sérvia entrou com um pedido para investigação da Corte de Justiça Internacional, que confirmou a legitimidade da resolução da assembleia kosovar em 2010.

A República do Kosovo tem diversos desafios em seu caminho: consolidar sua independência e estabilizar sua relação com a Sérvia, criar alicerces sólidos para sua economia e desenvolvimento, terminar de demarcar suas fronteiras com a Macedônia e garantir sua competitividade em um contexto territorial no qual o país não tem acesso direto ao mar (principal via de exportação e comércio internacional) e depende da relação com outros países vizinhos com tal vantagem (Albânia e Montenegro).



Tema: Esporte e Política

Disciplina(s): Geografia

Matriz de Referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias

Resumo: Estudar a relação entre esporte, política e identidade. Discutir o esporte não apenas como atividade de entretenimento ou de promoção de qualidade de vida, mas como fruto de um discurso social e político contextualizado.


Conheça a equipe do Jornalismo Educativo


Tags da matéria
Conflitos globais, Copa do Mundo, Futebol, Internacional

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