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Crônica esportiva

Muito além do resultado

28/04/15

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Bruna Tiso

Diferentemente de 1950, os comentários técnicos tomaram conta da Copa de 2014 e os textos leves e apaixonados saíram de cena

Edição: Ana Loiola

Quando Brasil sediou a Copa do Mundo pela primeira vez, em 1950, Nelson Rodrigues começou a escrever crônicas esportivas no jornal Última Hora e existiam dezenas de jornalistas na mesma função, somente no Rio de Janeiro. Em 2014, quando o país sediou o campeonato pela segunda vez, dificilmente o torcedor encontrava textos com a mesma paixão daqueles tempos. Os espaços dos jornais foram ocupados pela objetividade tão criticada por Nelson. Hoje, poucos autores ainda trazem vida para o futebol: Luis Fernando Veríssimo, José Roberto Orero, Xico Sá. No entanto, nenhum deles é cronista esportivo de profissão. A figura desse profissional, que foi responsável pela popularização do futebol e até pela construção de uma identidade nacional, está praticamente extinta dos jornais. (Veja matéria completa.)

Abaixo, saiba mais sobre a crônica esportiva, o contexto histórico do Brasil de 1940 a 1955, saiba como foi a construção do Maracanã e de outras obras para a Copa de 1950 e conheça quem foi Nelson Rodrigues.

O olhar leve e criativo sobre o cotidiano esportivo

Por Verônica Lima, jornalista

Bruna Tiso
Nelson Rodrigues transformou a crônica esportiva num acontecimento
Os esportes vão muito além de resultados de jogos e campeonatos. É impossível resumir histórias de paixões e esperanças, alegrias e decepções a simplesmente um placar, a uma classificação, a vencedores e derrotados. E é nesse espaço das emoções que se desenvolve a crônica esportiva.

A crônica é um gênero textual que se caracteriza por ter uma liberdade literária ao descrever os fatos do dia a dia. O nome relaciona-se diretamente com a noção de cotidiano: a palavra crônica se origina da palavra grega cronos, que significa tempo. O nome também remonta à palavra latina chronica, que no início da era cristã designava um relato de fatos na ordem em que ocorria no tempo, ou seja, a ordem cronológica. Trata-se, portanto, de uma narrativa baseada no tempo presente, na atualidade, ao desenvolver temas que interessam para descrever e entender o cotidiano. Além disso, a crônica também se apresenta em períodos determinados no tempo, geralmente publicada em jornais ou em outros periódicos jornalísticos, como revistas, semanários, sites e blogs.
Estadão disponibiliza Especial sobre Nelson Rodrigues

A linguagem da crônica esportiva busca aproximar e prender a atenção do leitor, recorrendo a recursos literários para acessar a emotividade do tema. O texto é simples, direto e não hesita em abusar de figuras de linguagem : metáforas, ironias, hipérboles, eufemismos e outras estruturas que, inseridas no texto, transformam um único lance no momento decisivo para o destino da vida de atletas e torcedores. É por isso que muitos autores afirmam que é na crônica que o jornalismo se encontra intimamente com a literatura, e que por isso pode ser confundido com ela.
Veja especial sobre Nelson Rodrigues do jornal O Globo

E essa relação íntima se justifica pela origem da crônica, uma evolução dos antigos folhetins, gênero surgido na França e muito utilizado nos jornais no século XIX e início do século XX, que narrava histórias ficcionais em série: cada edição do jornal trazia uma parte da história. No Brasil, muitos escritores publicaram seus livros em folhetins, e essa presença da literatura influenciou o surgimento da crônica. Segundo Antonio Cândido, um dos principais teóricos brasileiros de literatura, a crônica é um gênero tipicamente brasileiro: nos outros países o folhetim evoluiu e deu origem ao conto. Já no Brasil, se diversificou para além do conto e a crônica teve muito espaço para se desenvolver, pois os leitores se identificaram com a forma mais leve – às vezes até satírica – de abordar o cotidiano.
Ruy Castro fala sobre Nelson Rodrigues

E essa estrutura mais leve foi levada às últimas consequências na crônica esportiva, que se consolidou no Brasil na década de 1950. O gênero se desenvolve justamente com a popularização do futebol, cujo principal responsável foi o jornalista Mário Rodrigues Filho, que hoje dá nome ao mais famoso estádio de futebol do Brasil, o Maracanã. Mas foi o ilustre irmão de Mário, o escritor Nelson Rodrigues, que transformou a própria crônica esportiva num acontecimento, esperada ansiosamente por leitores torcedores depois de cada partida de futebol. Por isso até hoje a crônica esportiva é vista quase como sinônimo de crônica de futebol.

Saiba mais sobre a trajetória de Nelson:

Bruna Tiso e Gisele Toledo


O trabalho de Nelson Rodrigues, baseado no pioneirismo de seu irmão Mário Filho, abriu caminho para diversos outros autores que engradecem com criatividade e paixão o olhar sobre o futebol ao logo dos anos. Nomes como João Saldanha e Armando Nogueira  desenvolveram com maestria o gênero consolidado por Nelson. Na contemporaneidade, ainda que haja a crítica de que falta inovação e criatividade na crônica esportiva atual, destacam-se nomes como Juca Kfouri e Ruy Castro.

Confira abaixo mais algumas curiosidades sobre a vida e obra de Nelson Rodrigues:

Bruna Tiso e Gisele Toledo


Antes da primeira Copa no Brasil

Heloisa Louzada, especialista em História

BrAt82/Shutterstock
A figura do cronista esportivo está praticamente extinto dos jornais
Durante as décadas de 1940 e 1950, o Brasil viveu um clima de otimismo devido ao crescimento econômico favorecido pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Durante os anos 1940, com a Europa em guerra, as importações diminuíram e o Brasil, sob a ditadura nacionalista de Getúlio Vargas (1937-1945), impulsionou o desenvolvimento industrial, criando empresas estatais como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Vale do Rio Doce, além de diversificar sua produção agrícola.

Com o desenvolvimento das indústrias e a construção de grandes obras de infraestrutura, a população brasileira inicia o êxodo rural que se intensifica na década seguinte, ocasionando um grande crescimento da população urbana, principalmente nos centros urbanos das regiões Sul e Sudeste. Nesse contexto de crescimento do contingente de trabalhadores nos setores industriais e nas áreas urbanas, o governo de Getúlio Vargas também foi o responsável pela consolidação, ampliação de sistematização de leis trabalhistas (CLT), garantindo aos trabalhadores salário-mínimo e outros direitos como férias, décimo terceiro salário etc..

No governo do presidente Dutra (1946-1950) e durante a década de 1950, o presidente Getúlio Vargas em seu terceiro mandato, o governo foi mantido com a mesma orientação de desenvolvimentista e nacionalista, tendo como base propulsora o desenvolvimento dos setores energéticos e de transportes. O crescimento econômico ocorreu sob forte comando estatal, e foram criadas empresas como a Petrobrás e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico.

ANDRE DURAO/Shutterstock
Estádio do Maracanã
Durante esse período, o clima de otimismo também pôde ser sentido em outros setores da sociedade, como o cultural e o esportivo. Em fins da década de 1940 e início dos anos 1950, foram inaugurados os primeiros museus nas capitais brasileiras, como iniciativas de industriais para a promoção do desenvolvimento cultural do país. Em 1950, inaugurou-se em São Paulo a TV Tupi, a primeira emissora televisiva da América do Sul e no mesmo ano, o Brasil foi o país-sede da Copa do Mundo de Futebol. A partir de 1947 iniciam-se as obras como a construção dos estádios do Maracanã (Rio de Janeiro) e o Independência (Belo Horizonte), além da reforma de outros quatro estádios nas cidades de Recife, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

LatinContent/Getty Image
Estádio do Pacaembú
O Rio de Janeiro, então capital do país, promoveu, entre os anos 1947 e 1950, a construção do Maracanã em meio a uma disputa política entre Carlos Lacerda e o então prefeito do Rio, Mendes de Morais. Os dois tinham divergências quanto ao local da construção do estádio e disputavam quem ficaria com a fama e o prestígio de encabeçar a construção do maior estádio do país, com capacidade para 155 mil torcedores.

Muitas obras foram entregues com atrasos ou feitas “em cima da hora”, sendo o próprio Maracanã inaugurado sem ter sido totalmente finalizado. O estádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940 e considerado moderno, com capacidade para 60 mil pessoas, passou por algumas reformas para se adaptar às exigências da FIFA. O mesmo se passou com os estádios do Recife e de Curitiba, então construídos para partidas de futebol amador, que foram reformados para poder receber jogos de 1950. Na época, as únicas exigências diziam respeito ao tamanho do campo de futebol, ter uma área para a imprensa e um vestiário adequado aos jogadores.


Tema: Crônica esportiva

Disciplina(s): Língua Portuguesa

Matriz de Referência de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Resumo: O plano de aula propõe uma reflexão sobre as características do gênero crônica esportiva e a produção de um texto sobre a Copa do Mundo de Futebol de 2014.


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Futebol

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